Enxaqueca crônica

As dores de cabeça (cefaléias) podem ser de natureza primária ou secundária a outras causas neurológicas. As dores de cabeça primárias constituem o tipo de cefaléia mais comum e devem-se a mecanismos neuroquímicos. Exemplos típicos e muito comuns de dores de cabeça primárias são enxaqueca e a cefaléia tensional. Nestes casos, os pacientes devem apresentar exame físico e neurológico normais, e não há necessidade de investigação se a história é típica.

A enxaqueca (ou migrânea) é um tipo comum de cefaléia primária. Caracteriza-se por uma dor de cabeça recorrente, de localização variada mas sobretudo em um dos lados da cabeça. A dor é do tipo pulsátil, de intensidade variável, acompanha-se por intolerância ao barulho e a luz e piora com o esforço físico. Pode vir acompanhada por náuseas e vômitos. Alguns pacientes apresentam brevemente sintomas que precedem a crise. Estes fenômenos são conhecidos como “aura”. O tipo de aura mais comum á a visual, que se manifesta por visão em zig-zag, pontos brilhantes ou manchas no campo visual. A duração é de alguns minutos, e em seguida, ocorre a crise de enxaqueca.

Cerca de 95% das pessoas terá alguma crise de cefaléia ao longo da vida, e a enxaqueca é comum na população geral, respondendo por um terço das consultas neurológicas. Segundo um estudo recente, a enxaqueca afeta 10,1 a 17,4% das mulheres na América Latina, e 2.9% a 7,8% dos homens.

Algumas substâncias, o comportamento e o meio ambiente podem deflagrar crises de enxaqueca. Cerca de metade dos pacientes se auto-medicam nas crises, e muitos fazem abuso de analgésicos, sobretudo aqueles com enxaquecas mais freqüentes, com controle insatisfatório da dor. Há uma tendência nestes casos a uma cronificação gradual, com aumento da intensidade e da freqüência e das crises, e muitas vezes idas regulares ao pronto-socorro, além de prejuízo da capacidade produtiva e da qualidade de vida.

Pacientes com enxaqueca crônica, pelos frequentes eventos neuroquímicos e vasculares, estão mais expostos ao risco de acidentes vasculares encefálicos e doenças cardiovasculares. Transtornos de humor e ansiedade, insônia e fibromialgia são condições comórbidas nestes pacientes. Obesidade, ronco, consumo excessivo de cafeína e eventos estressores maiores de vida sao também mais prevalentes.

O tratamento preventivo desta condição tem como objetivo diminuir a frequência e intensidade da enxaqueca, e melhorar a resposta ao tratamento agudo das crises. Há uma variedade de medicações para este fim, e o neurologista irá discutir com o paciente a escolha individual mais adequada. O tratamento exige também uma reflexão sobre o estilo de vida. Uma dieta inadequada, abuso de álcool, privação e horários irregulares de sono, estresse, tabagismo, excesso de bebidas cafeinadas, são fatores que pioram as crises de enxaqueca.

Segundo a Sociedade Brasileira de Cefaléia, “ter dor de cabeça é comum mas não é normal”. Se as crises estão muito frequentes, e prejudicando duas atividades do dia a dia, é hora de procurar atendimento médico. Crises fora do padrão habitual, crises que iniciam após os cinquenta anos, e cefaléias acompanhadas por outros sintomas neurológicos requerem uma atenção ainda mais cuidadosa.

Virna Teixeira

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