Reações adversas no novo filme de Soderbergh

Steven Soderbergh volta às telas com um filme excepcional, Side Effects, que será lançado este mês por aqui com o nome de “Terapia de risco”, e roteiro de Scott Z. Burns. O “pharmaceutical thriller” é estrelado por Jude Law, Rooney Mara e Catherine Zeta-Jones. No início do filme, o marido de Emily Taylor (Rooney Mara) acaba de sair da prisão. Emily, que parece deprimida e com dificuldades de readaptar-se após o regresso do marido, dirige o carro contra uma parede numa aparente tentativa de suicídio e é levada a um pronto-socorro. No hospital, após o atendimento de urgência, é vista pelo psiquiatra de plantão Jonathan Banks (Jude Law). O Dr Banks sugere internação para a paciente, mas ela se recusa, argumenta que já sofre de depressão há algum tempo e que tem consciência das suas dificuldades. Diz que irá vê-lo em seu consultório. Ele concorda, em parte pelo cansaço evidente do fim do turno, em parte para atrai-la para a sua clínica, afinal, sendo psiquiatra, ele sabe que o correto seria mantê-la internada sob observação.

O Dr Banks passa então a atender Emily Taylor de forma regular. Ela tinha histórico de uso de vários antidepressivos sem melhora. Ele tenta outras medicações também sem sucesso e resolve procurar sua psiquiatra anterior, a Dra Victoria Siebert (Catherine Zeta-Jones), que também era analista da paciente e agora tem um emprego bem sucedido na indústria farmacêutica. A Dra Victoria sugere que ele experimente uma nova droga para depressão, o Ablixa, e a paciente também fica entusiasmada com esta possibilidade, pois havia visto anúncios da substância na mídia. Ele entra em contato com o laboratório do Ablixa e é convidado para realizar testes terapêuticos bem pagos com esta droga e com outros medicamentos hi-tech em seus pacientes, o que poderia garantir um melhor movimento no seu consultório.

Em paralelo a esta situação, acompanhamos as dificuldades e a vida pessoal do Dr Banks, um médico inglês com dificuldades conjugais, cansado da rotina de plantões e ansioso para se inserir no agressivo mercado de Nova Iorque. Ele observa e ambiciona a nítida ascensão de alguns colegas que trabalham em associação com laboratórios farmacêuticos. O Dr Banks prescreve o Ablixa para Emily Taylor e ela tem uma melhora surpreendente, mas passa a apresentar estranhos efeitos colaterais, entre eles um suposto sonambulismo. É a partir destes efeitos colaterais que a trama se desenrola, com repercussões graves para a carreira do Dr Banks. Não irei discutir a sequência de eventos aqui, para não tirar a surpresa do thriller.

Side effects é uma bela sátira ao mercado farmacêutico, e também uma crítica ao modelo médico vigente e à psiquiatria contemporânea. Aponta para o risco de questões éticas e de uso do poder envolvendo os profissionais de saúde mental, a falta (ou seria ingenuidade?) de conhecimento médico na prescrição de novas drogas por propaganda dos representantes, pela “moda” vigente e para obter benefícios secundários, e ambivalências, erros de julgamento e de percepção durante as consultas. Os efeitos colaterais podem ser severos.Os médicos também podem ficar  expostos a simulações e manipulações emocionais, e precisam ter um bom treinamento para lidar com estas situações, pelo risco de danos legais.

Para concluir, gostaria de destacar  uma observação muito boa que Soderbergh fez em uma  entrevista recente:

“That’s a bigger business — if you want to be part of the war on sadness, you’ve got a lot more soldiers. It’s an interesting issue. Then you add the fact that literally everyone’s physiology is different. Everyone reacts differently to these drugs. Everyone reacts differently to combinations of drugs. How your body reacts over a long period of time and whether or not your dosage needs to be adjusted and whether or not that will affect your side effects. You can’t ask for to more complex things to be interacting with than a chemical made in a lab and your body. It really does require an intermediary like a doctor, hopefully a good one, to navigate that interaction. And as we know there are really good doctors and then there are doctors who are not so good.”

Esse balanço delicado requer respeito à fisiologia e à subjetividade do paciente, paciência e tempo adequado de atendimento. Infelizmente isso nem sempre ocorre, quer pelas condições de trabalho, quer por razões ligadas ao profissional, ou por circunstâncias específícas e limitações dos métodos terapêuticos.

Virna Teixeira

Para saber mais: uma resenha no jornal inglês The Guardian.

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