ÜBER COCA

A cocaína é o principal alcalóide encontrado nas folhas de arbustos do gênero Erythroxylum, principalmente da variedade Erythroxylum coca. Carl Von Scherzer (1821–1903), um naturalista austríaco, viajou pelo mundo na frota Novara em 1857–1858; durante sua estadia no Peru, ele colecionou uma amostra de folhas de coca, que foram enviadas para o químico alemão Albert Niemann (1834–1861). Niemann isolou o princípio ativo em 1860, que ele chamou de cocaína. Desde o momento em que a cocaína foi isolada, tentou-se utilizá-la como anestésico local. Após a sua extração, a cocaína passou a ser utilizada em vários produtos, entre eles o vinho Mariani, uma mistura de vinho e cocaína, um tônico muito popular na época, usado por papas, reis e recomendados por médicos. O laboratório Merck passou a distribuir a droga para alguns especialistas realizarem pesquisas sobre seus efeitos e entre eles, estava o pai da psicanálise, Sigmund Freud.

Foi o oftalmologista vienense Carl Koller (1857–1944) que, estimulado por Freud, estudou e observou as propriedades anestésicas locais da cocaína. Freud estava interessado nos efeitos estimulantes da droga para uso na dependência de morfina, comum na época, e na utilização da cocaína para tratar as neurastenias e encorajou Koller a realizar experimentos com cocaína no ano de 1884. No mesmo ano, Freud publicou uma revisão sobre cocaína (Über Coca) e Koller realizou a primeira cirurgia com um anestésico local, a cocaína, em um paciente com glaucoma. Sua descoberta teve grande impacto e suas observações foram traduzidas para o inglês e publicadas na revista The Lancet, seguidas por outros experimentos e publicações, o que resultou no desenvolvimento da anestesia regional e local. Dr. William Halsted (1852–1922) e o seu colega Richard John Hall (18?–1897), por exemplo, desenvolveram técnicas de bloqueio regional e de nervos periféricos com a cocaína, com avanços na área de anestesia local, a partir das observações iniciais de Koller.
O uso da cocaína se espalhou rapidamente após a descoberta dos seus poderes anestésicos, mas porque era administrada em altas concentrações (10-30%), logo começou a verificar-se seus efeitos adversos. Entre 1884 e 1891, 200 casos de intoxicação sistêmica e e 13 mortes atribuídas à droga foram registrados, o que levou à procura por outros agentes anestésicos. Por volta desta época, os efeitos adictivos da cocaína começaram a se manifestar em vários usuários, entre eles Freud e Halsted.

Halsted tornou-se acidentalmente um dependente de cocaína e, posteriormente, de morfina; caiu em deterioração profissional e foi incapaz de publicar os resultados das suas observações. Freud havia receitado cocaína a seu amigo Dr Ernst von Fleischl Marxow como alternativa à dependência de morfina que ele adquirira após tratamento de dores secundárias a uma amputação na perna. Fleischl passou a consumir quantidades cada vez maiores de cocaína subcutânea e desenvolveu um quadro de psicose paranóide intratável por causa da droga. Freud foi acusado de irresponsável pela comunidade científica e posteriormente, revisou seu estudo Über Coca alertando para esses efeitos.
A excitação sobre os efeitos anti-fadiga da droga tinha chegado porém à imprensa e em 1886, John Pamberton, um químico norte-americano, patenteou um novo remédio que utilizava cocaína na sua fórmula, posteriormente transformado em bebida: a Coca-Cola. Até hoje folhas de coca (sem o ingrediente ativo) fazem parte da fórmula do refrigerante.

Passado o entusiasmo inicial , nas duas décadas seguintes, a sociedade passou a tomar consciência de alguns dos efeitos prejudiciais da droga e a imprensa norte-americana, por exemplo, passou a atacar os produtos que eram fabricados à base de cocaína, muitas vezes associando o consumo a castas étnicas e relacionando o seu uso a comportamento criminal. A cocaína caiu em desuso no início do século XX, voltou a ser utilizada como droga de abuso na década de 70, teve um pico de consumo nos anos 80 e só no final daquela década foi reconhecida oficialmente como droga capaz de causar dependência.
Virna Teixeira
© Virna Teixeira. Em: Cocaína e crack (Monografia apresentada na Escola Paulista de Medicina, Depto de Psicobiologia, 2004).